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25 de set. de 2009

Professor TEM que dançar com aluno em baile?


fonte: Jornal Dance 
por Milton Saldanha
02/Julho/2007
 

É preciso entender e fixar os limites e lugares certos para cada tipo de comportamento nas relações entre alunos e professores de dança. Existem muitos equívocos que precisam ser esclarecidos. A dança no baile é prazer. Se virar obrigação profissional começa a complicar e a perder a graça. 

É bom mudar de opinião de vez em quando. É isso que nos dá a sensação de sermos seres pensantes e não cabeçudos inveterados. O tema deste editorial é um caso típico em que mudei de opinião. Durante muito tempo achei que os professores de dança de salão deveriam dançar com seus alunos nos bailes. Essa posição atendia ao que chamaria de interesses do nosso meio, a importância de motivar pessoas e até de formar mercado de trabalho. Pois bem, não penso mais assim. De repente, com base na minha experiência de eterno aluno de dança (no momento tango), passei a achar isso não apenas uma grande bobagem, mas também um erro que pode causar mais estragos nas relações do que bons resultados. Esse raciocínio percorre um caminho longo e sinuoso, com muitas variáveis. É um tema vasto, talvez polêmico, rico em vertentes. Vou me ater aqui, até por limitação de espaço, a alguns pontos que considero mais importantes e ficaria muito feliz se o debate fosse enriquecido pela participação dos leitores, tanto para concordar como discordar, de forma ampla ou breve, mas sempre democrática. A coluna Compasso do Leitor existe para isso. A única exigência é que a linguagem seja educada, mesmo num eventual texto contundente. Primeiro ponto: dança em baile é acima de tudo prazer, troca afetiva, combinação de habilidades. Tem quem existir química entre o casal, não no sentido sexual, como habitualmente se fala, mas de aceitação da mesma linguagem corporal. Sim amigos, dançar é como falar um idioma. Formamos frases com nossos corpos e olhos, por vezes provocações, o outro responde. No tango é uma
linguagem ainda mais hermética, cheia de códigos, e é por isso que não basta o cavalheiro ser firme na condução. Se a dama não conhecer esses códigos, for pobre no vocabulário, não perceber suas nuances, e estiver desprovida de criatividade para elaborar seus próprios movimentos, a dança não acontecerá. Sendo ele o condutor, acho que nem preciso dizer que vale o mesmo, em dobro, para o homem. Já ouvi e continuo ouvindo de vez em quando algumas queixas de alunas, ou alunos, que não são tirados nos bailes por seus professores/as. 

Uma delas, minha amiga, moradora numa capital sulina, chegou a cortar relações e mudou de professor por causa disso. No caso, extremo, teve toda a razão. O sujeito, conhecido por sua arrogância, foi grosseiro. A recusa à dança, quando mal formalizada, fere as pessoas. É um soco na auto-estima. Isso explica a hesitação dos homens quando chegam num ambiente que ainda não conhecem. Certa vez vi um rapaz, coitado, ouvir três
negativas consecutivas. E nem era uma pessoa de má aparência. Quase a nocaute, visivelmente chocado, foi embora do baile. Uma lástima. Com todo homem já aconteceu. É mais ou menos como broxar, e o efeito psicológico é quase similar. Certa ocasião, numa milonga em São Paulo, no Campo Belo, uma jovem senhora me recusou a dança alegando que já tinha trocado de sapatos. Alguns minutos depois estava na pista, dançando. A razão: eu era iniciante no tango. Além de mostrar que não é uma pessoa generosa, não lhe passou pela cabeça
que depois de algum tempo eu aprenderia. O problema não é que eu lhe faça falta, seria horrenda presunção pensar isso, e sim que, a cada recusa, com esse hábito não recomendável, ela própria vai se condenando ao ostracismo. O incidente de certa forma até me ajudou, porque, indignado e movido por temperamento apreciador de desafios, me apliquei nas aulas. Vejam como é a vida: antes do episódio eu enxergava essa pessoa com simpatia e gostava do seu jeito de dançar. Depois, associei sua imagem com a atitude antipática. Jamais voltarei a dançar com ela, nem em bailes, nem em práticas, nem mesmo em workshops. Se não tiver alternativa, fico fora. Todo homem que tenha vergonha na  cara deve fazer o mesmo sempre que levar uma tábua indelicada como essa. Algum dia essas grosseiras e metidas a grandes dançarinas acabam sem nenhum parceiro, e vão merecer.

Só admito e até recomendo a recusa se o homem estiver bêbado, sem asseio, todo suado, com a roupa descomposta, além de  ter fama de praticar assédio sexual. Também no caso de sua dança ser grotesca, o que nada tem a ver com ser iniciante. Que vá aprender, pô! Mas essas são questões de comportamento, da vida social, da etiqueta. Seria absurdo entender como ético que professores tenham a obrigação de dançar nos bailes com seus alunos. Nas práticas, da própria academia, que são uma extensão das aulas, aí sim eles têm esse dever. Aula é trabalho e relação comercial. Isso precisa ficar definitivamente claro. Um paga, outro ensina. Ambos lucram. É óbvio que isso tem que envolver simpatia recíproca, no caso de aula particular, senão fica insuportável. Mas baile, fora da escola, é outro campo totalmente diferente. Eu até prefiro que minhas professoras de tango não dancem comigo nos bailes se para elas isso for uma mera concessão profissional e não um prazer com emoção. Sem isso nenhuma dança é gostosa. Elas sabem mais do que eu, então é mais do que natural e aceitável que queiram dançar com quem lhes traga novos desafios, ou mais fluidez, quem sabe até aprendizado. Sobre a emoção na dança vale a pena abrir aqui um parênteses para expressar um conceito profundamente importante. Há tangueiros de shows cheios de técnica e passos complicados, mas que não passam ao público avançado no tema a mínima emoção, porque dançam com frieza. Li recentemente excelente artigo da bailarina argentina Carmen Iglesias, na revista portenha "La Milonga Argentina" (maio), sobre a emoção no tango. Ela trata justamente disso, afirmando com argumentos sólidos que de nada adianta toda a técnica do mundo se não existir o principal, que é a emoção. Suas palavras: 

"Sea en el estilo salón, milonguero, del centro o nuevo, si no hay conexión emocional entre quien marca, y quien se entrega a esa marca, pueden estar haciendo pasos interesantes y espectaculares, pero ciertamente no están bailando tango".

Como todo mundo, incluindo professores, eu também tenho minhas preferências nos bailes. Aquelas damas com as quais divido o verdadeiro prazer de dançar. Não quero a rainha do baile, nem preciso provar nada a ninguém. 
Quero simplesmente aquela dama que mostre prazer em dançar comigo, e me proporcione a mesma alegria. Nada mais, nem menos. E isso a gente descobre no primeiro minuto, no abraço, nas respostas, na cadência dos passos, na caminhada milongueira, na respiração controlada, no ouvir junto a música respeitando as pausas, sem exageros ridículos, na serena elegância,  na entrega à condução que leva à sincronia do casal. Dançar bem é isso. E não importa se o dançarino é iniciante, intermediário ou avançado, a base serve para todos. Desse conjunto deriva o prazer. Não é mostrar friamente que sabe duzentos passos, geralmente fora da música, para exibição pública. O aluno tem que respeitar o momento do professor no baile, com a percepção que ali é um espaço de lazer e descontração, não de trabalho e obrigações para nenhuma das partes. Se ele quer curtir com a parceira dele, e só, ou num pequeno grupo, não há nada de errado nisso. É preciso observar ainda que não há tempo num baile para fazer cortesia a todos os alunos. Por que só você teria o privilégio? Existem as situações especiais. Professores que levam os alunos para um baile, por exemplo, para curtirem juntos horas agradáveis, sem o rigor cansativo das aulas, e para colocar em uso o que aprenderam. Mesmo essa turma deve tomar chá de
semancol e não achar que o professor tenha a obrigação de dançar com eles em todos os bailes futuros. Existem também as horas em que o professor quer distância dos alunos, não por falta de carinho, mas para descansar e ter seu próprio momento no baile. Isso não é um escândalo, não pode ser mal interpretado. É o precioso momento do respeito ao lazer do mestre. Sacanagem é não perceber e violar seu direito à privacidade, ainda que o baile seja um local público. Lástima, mesmo, será dançar simulando prazer, para não perder o cliente. Cena comum entre determinados "personal dancers". Não todos, claro. Alguns sequer se dão ao trabalho de disfarçar o tédio. Existe uma enorme diferença entre curtir o baile e cumprir a tabela. O detalhe é que a dança não perdoa. 

Basta ver a energia que emana do corpo e o olhar. Se ambos estiverem opacos, sem brilho, enquanto o aprendiz
tolo se ilude achando que está abafando, no íntimo o mestre estará torcendo para a música acabar logo. Vale a pena?

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